Quarta-feira, 25 de Maio - Aqueles ao redor da mesa são nove. Idades entre 17 e 19, discutem com a rigidez de idéias característica da fase. "Não, acho que assim não rola", "Do outro jeito tava melhor", "Tá, agora vamos começar". Não há concessões. Há um súbito acaloramento.
A discussão gira ao redor de um roteiro: o esqueleto de um programa de rádio a ser feito, logo no dia seguinte, tarefa da faculdade. As sugestões são muitas e as decisões, poucas. Na verdade, demora-se a entrar no ritmo. Fazer um progama de notícias geral, ou algo mais específico, um boletim cultural, quem sabe? Falar de cinema, o fechamento de Cannes; de música, o vazamento do disco novo de uma banda britânica. Não, melhor, não. "Vamos fazer algo mais amplo".
Modelo definido, é hora de procurar o conteúdo. Mãos à obra na clipagem. Economia? Não, é maçante. Mas tem o caso Strauss-Khan. Falando em política, e esse Código Florestal aprovado, hein? Tem de entrar na pauta. Assim como o embrião de escândalo que foi plantada por Palocci e suas famigeradas consultorias. Os assuntos vão puxando uns aos outros, eles vem de mãos dadas: é uma ciranda.
Mas eles, os projetos de repórteres não são sérios, não com aquela seriedade engessada de quem leva tudo no fio da faca do drama. Então por que não haver descontração no ar? Ela começa no nome do programa, derivado de uma piada interna. Mesma piada que vai ser abordada em um quadro do roteiro, um informativo sobre festas (porque poucas coisas interessam tanto àqueles dessa idade). As brincadeiras, tão rápido quanto as notícias, se põem no papel sozinhas.
O roteiro é terminado, enfim. O "quase roteiro", na verdade. Ele é solto, flexível, sucinto em sua estrutura. Contém apenas uma indicação cronológica de coisas a serem ditas, mas mesmo assim é sujeito a improvisos e dados de última hora.
É isso aí. Agora eles se ancoram na certeza de terem feito o que de mais acertado podiam fazer. Confiança na própria voz, o instrumento de informação do radialista, é a base na qual vão sustentar seus pés (trementes, talvez, nunca se sabe o alcance do próprio nervosismo) até a manhã seguinte. Agora riem, jogam sinuca, discutem bebedeiras pregressas. Eles não são sérios; é o seu trunfo, é o que traz essa leveza de quem gosta do que faz.
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